Ex-jornalista da Globo relata situações constrangedoras na TV: ‘Toda mulher já passou’

Marcela Monteiro evita citar episódios específicos, mas reconhece que esse é um cenário historicamente problemático

A jornalista Marcela Monteiro, de 39 anos, vive um novo momento em sua trajetória profissional. Quem acompanha televisão certamente a reconhece do Vídeo Show, do Mais Você, do É de Casa ou até mesmo da CNN Brasil, onde costumava fazer entradas ao vivo. Agora, entretanto, ela assume um novo papel na TV: é a nova diretora executiva da TV Max Rio.Receba as principais notícias direto no WhatsApp! Inscreva-se no canal do TerraNo cargo, Marcela Monteiro tem capitaneado uma ampla reformulação na grade de programação do canal, com novos programas, uma identidade renovada e uma forma diferente de dialogar com o público, principalmente no digital. Um dos destaques é o De Repente 30+, que começou como um projeto pessoal e agora avança para sua segunda temporada, reunindo diversos nomes de peso do audiovisual.“Nessa segunda temporada temos Isabella Santoni, Marcela Ricca, Cintia Rosa, Juliana Paiva, Nathália Dill, muita gente boa. Ter esses nomes grandes, tão fortes, de pessoas tão respeitadas e que eu admiro tanto é muito emocionante. Eu já até começo a chorar. É muito sensacional… Sou eternamente grata a elas pela confiança”, disse ao Terra. “E a gente fala de tudo: saúde, mente, sobre a mulher ter seu espaço…”, completou.Apesar de ocupar hoje um cargo de liderança, Marcela não esconde que já passou por momentos desagradáveis nos bastidores da televisão. Ela evita citar episódios específicos, mas reconhece que esse é um cenário historicamente problemático –ainda que, aos poucos, em transformação.“Nosso mundo é muito machista, e o meio artístico também é. Antigamente existia muito essa coisa do poder, do ego, da vaidade. Isso vem mudando: temos compliance, temos gente falando sobre o assunto [assédio]. Mas ainda há um caminho muito longo pela frente. É um processo que vem de lá de trás — nada muda de uma hora pra outra ou tão rápido quanto gostaríamos. Que a gente consiga olhar pra isso e entender que não quer mais esse tipo de comportamento.”Ao longo dos anos, ela já viu de tudo na TV. “Pessoas gritando no set, sabe? Era, infelizmente, muito comum. Hoje, algumas coisas já fazem alguém levantar a mão e dizer: ‘espera aí, tem algo errado nisso’.”Como forma de sobreviver nesse ambiente, ela desenvolveu mecanismos de autopreservação. “Nas entrevistas, eu conseguia deixar os convidados à vontade, mas aquilo era construído ali, no estúdio. Depois, acabava. Eu não tinha contato com a galera fora dali — não mandava mensagem, não ligava, não saía para tomar uma. Hoje acho que talvez fosse um mecanismo de defesa para me poupar de situações que pudessem me trazer desconforto. É triste, mas toda mulher desse meio já passou por alguma situação constrangedora.”Em seguida, ela relembra: “Várias vezes, obviamente, passei — e colegas também. Já ouvi de tudo: de ‘piadas’ que não são piadas, a comentários totalmente inapropriados, e até coisas um pouco mais graves. Sempre fui muito profissional, e como eu sabia que não tinha ninguém pra me proteger caso algo acontecesse, fui tentando me blindar. Mas é claro que já vivi situações que eu não gostaria de ter vivido. É uma luta pra isso mudar. Agora tem compliance, tem gente falando, mas ainda tem um caminho longo”.Marcela reforça que se alegra ao ver mais mulheres ascendendo para cargos de liderança. Para ela, essa é uma das principais forças de mudança. “Eu torço muito para que, quando as mulheres cheguem nesses lugares, elas tenham de fato poder de decisão e de se posicionar, pra começarmos a reescrever essa história. Não vai mudar de uma hora pra outra, é um processo de construção de uma mentalidade diferente. Eu torço muito para que esse movimento seja cada dia mais forte.”

Carregar Mais Notícias