Cleidson Silva imigrou, venceu e hoje conta histórias de brasileiros pelo mundo
Ele foi para a Europa com dinheiro emprestado, trabalhou na construção civil e agora orienta imigrantes em um podcast
“A vida está em outro lugar.” Esta afirmação faz parte do romance ‘La vie est ailleurs’, escrito por Milan Kundera em 1969. Nascido na República Tcheca, o autor escolheu Paris como sua casa.A capital francesa é também o lugar onde vive Cleidson Vieira Silva, um ex-mestre de obras que nasceu na Bahia e se criou em São Paulo.Assim como Milan Kundera, ele optou construir uma vida longe do país de origem. Primeiramente, em Portugal. Depois, tentou com a mulher, Cláudia, a Tatta, viver o ‘american dream’ nos Estados Unidos.No fim de 2025, lançou o livro ‘Clandestinos’ (Editora Primeiro Capítulo), no qual relata o drama de atravessar o deserto do México e ser detido. A aventura deu errado, mas deixou lições valiosas.Na sequência, Cleidson e a esposa voltaram para a Europa, onde fincaram raízes. Hoje, ele comanda o podcast ‘Brasileiro Gringo’, onde recebe outros imigrantes com histórias inspiradoras.Em conversa com a coluna, o comunicador relembra as dificuldades da família humilde e a ajuda para sair do Brasil, além de comentar a realidade estável na França e a solidão inerente a todo imigrante no exterior.Por que decidiu registrar em livro sua trajetória como imigrante?Eu vivo fora do Brasil há 20 anos. Trabalhei aqui na França em construção durante muito tempo, cheguei a ser como um mestre de obras. Em 2022, a minha esposa, Cláudia, me deu um chacoalhão. Ela disse: ‘cara, você não é das obras, é da comunicação’. Enxergou em mim virtudes que eu nunca tinha prestado atenção. Então comecei a acompanhar comunicadores nas redes sociais. Passei a incutir em mim algumas ideias, a ler, entender o processo. Um dia, sentei e tentei bolar um plano. Surgiu o projeto de montar um podcast para contar histórias de brasileiros que decidiram viver longe do Brasil. Partiu da minha própria história, de coisas guardadas na memória. Aí pensei: quando eu tiver um número legal de seguidores, vou escrever e lançar um livro. Quando e como saiu do Brasil pela primeira vez?Eu nasci em Teixeira de Freitas, no extremo sul da Bahia, sou filho de um baiano e uma mineira. Com um ano e pouco de idade, meus pais se mudaram para São Paulo, mais precisamente São Miguel Paulista, favela Santa Inês. É naquele lugar que cresci, vivi até 14, 15 anos. Depois, fui para outra periferia em Hortolândia, interior de São Paulo. As coisas sempre foram muito difíceis para nós. A gente não tinha água, não tinha luz, era luz de vela. Banho, com galão de água. O tempo foi passando, eu trabalhando, até que em 2004 comecei a ter uma vontade de sair do Brasil. Queria só ver como era o mundo lá fora, entender. Vi algumas imagens que me fizeram viajar acordado. Sempre fui muito curioso. Em 2005, a família da minha esposa, que na época era só uma amiga, recebeu o convite para ir para Portugal. Ela sabia que eu estava com vontade de mudar. Alguns meses depois, me ligou e disse: ‘por que você não vem para cá?’ E assim eu fiz. Saí do Brasil e vim em direção a Lisboa. Um detalhe: eu não tinha dinheiro, tá? Um amigo foi ao banco e fez um empréstimo no nome dele para me ajudar. Lembro que foram juros excessivos, um abuso. A gente pegou 6 mil euros e eu paguei 12 mil. Uma coisa de louco.(Dois anos depois, Cleidson e Cláudia tentaram entrar nos Estados Unidos, foram deportados e voltaram a Portugal.)Há quantos anos mora em Paris e como é sua vida?Morei cinco anos em Portugal. Depois, com a crise no país, passei a me dividir entre períodos lá e na França, para trabalhar. Em 2010, eu vim definitivamente para Paris. Recebi uma proposta da empresa que a gente prestava serviço. E foi muito bom. A nossa vida aqui é interessante, com altos e baixos. Temos três filhos: o Theo, o Noah e a Evie, que nasceram aqui. Theo, o mais velho, compete pela Federação Francesa de Natação. Para mim, falar isso é um orgulho porque a gente olha para trás e lembra de onde veio, agora podemos dar uma condição muito bacana às crianças. A vida aqui é corrida, é trabalhosa, dura, mas, muitas vezes, eu não me sinto imigrante. Já me sinto cidadão francês por esses 15 anos, tenho direito à nacionalidade francesa, sinto carinho por esse país, assim como tenho por Portugal e pelo Brasil.Apesar de muitas informações, ainda vê a romantização da vida de imigrante?Sim, isso acontece. Numa palestra que fizemos aqui na Embaixada do Brasil em Paris, com a Câmara de Comércio, eu falei sobre isso. Acredito que as redes sociais deram um mau exemplo sobre a imigração. Muita gente que mora aqui começou a mostrar ‘olha o que eu compro com 10 euros, olha, eu tenho um iPhone, olha isso, olha aquilo, olha o que dá para fazer’. E acabam iludindo pessoas, que imigram pensando fora da realidade. Eu já vi pessoas prometendo a alguém que está no Brasil que conseguiriam fazê-lo ganhar até 10 mil euros aqui na Europa. Gente, 10 mil euros é muito dinheiro. Não é qualquer um que ganha 10 mil euros por mês. Um trabalhador com salário de 2.500 euros é considerado de classe média aqui na França. Não são todas as pessoas que ganham o mínimo, cerca de 1.500 euros. No meu podcast, eu trago as pessoas para a realidade, quero mostrar as dificuldades e também as facilidades. Não é esse mar de rosas que alguns mostram no TikTok e no Instagram. Então a ideia é sempre trazer essa realidade. E tem a questão da saudade. Falei sobre isso em um evento aqui na universidade Paris-Saclay: as pessoas têm uma solidão muito grande aqui. Muitas pessoas vão embora do Brasil para fugir de alguma coisa. Numa entrevista que fiz, descobri que uma entrevistada havia fugido do ex-namorado. Há homossexuais que vêm para a Europa para fugir do preconceito no Brasil, por exemplo. Por isso, não dá para romantizar a imigração.E o movimento contrário, de quem volta ao Brasil?Nesses anos aqui fora, eu passei a entender que a imigração acontece em ciclos. Tem uma época que dá um ‘boom’ e todo mundo vem. Depois, acalma. Lembro que em 2013, a economia brasileira deu um salto enorme e muitos imigrantes voltaram para o país. Algum tempo se passou e estavam retornando para a França, Bélgica, Alemanha, Reino Unido. Então, a ideia é sempre trazer pessoas com histórias reais, mostrar como foi duro chegar até o sucesso.Conhece muitas histórias tristes?Há quem venha para cá com o plano de ficar dois anos, juntar o dinheiro e voltar para o Brasil. Arruma um emprego, trabalha duro, mas começa a gastar, a comprar, a viver intensamente nesse lugar. O tempo passou e não conseguiu juntar. A pessoa fica com vergonha de voltar sem dinheiro. Às vezes, nem tem como pagar a passagem. Acontece de conhecer alguém, casar, ter filhos. E vai ficando amargurada, sente falta do Brasil. Acredito que 60% das pessoas que eu conheço estão nessa situação.Nos países em que viveu, foi alvo de racismo e xenofobia?Em Portugal, não sofri nenhum tipo de preconceito. Estou sendo muito sincero, zero problema. E olha que eu sou uma pessoa mestiça e poderia ter passado por isso. Sempre digo nas palestras: existem pessoas racistas, xenófobas e preconceituosas em qualquer lugar do mundo. Aqui na França também não tive problema. Já viajei por vários lugares aqui da Europa e não sofri nada. Ao contrário. Eu sou desses que levantam uma bandeira e dizem com muito orgulho, em todo lugar: ‘eu sou brasileiro’. E quando as pessoas descobrem que sou do Brasil, elas sorriem.Qual a dica de ouro ao brasileiro que sonha tentar uma vida melhor no exterior?Pergunto isso a todos os convidados do meu podcast. Eu tenho a minha resposta pronta: quem sou eu para falar não venha? Olha para mim hoje e olha onde estou. Tenho orgulho de dizer que fui mestre de cerimônias na Casa Brasil, responsável pelo Paralímpico aqui na cidade de Saint-Ouen, ao lado de Paris (nos Jogos de 2024). Em um evento, eu apresentei a presença do presidente da República do Brasil, o senhor Luiz Inácio Lula da Silva. Conquistei tudo isso aqui fora. O que eu digo é: se organize, quanto mais se organizar para imigrar, menos vai sofrer. Pesquise sobre o país, o idioma. Vai ser menos duro. Se você tem um sonho, faça acontecer.Em um episódio do ‘Brasileiro Gringo’, Cleidson Silva lançou uma pergunta que deve fazer qualquer brasileiro no exterior sentir um nó na garganta: “Imigrar e ser feliz é possível?” O livro ‘Clandestinos’ está disponível na Amazon.
