Fome muda o humor? Estudo aponta que o problema pode estar na sua percepção
Pesquisa alemã sugere que reconhecer a fome conscientemente pesa mais no mau humor do que a glicose baixa no organismo
O famoso mau humor que aparece quando a fome aperta pode ter uma explicação diferente do que muita gente imagina. Não seria apenas a queda do açúcar no sangue a responsável pela irritação, mas a consciência de que o corpo está pedindo comida.Essa é a principal conclusão de um estudo conduzido pela Universidade de Bonn, na Alemanha, que analisou como fome, glicose e emoções se conectam no dia a dia. Os resultados indicam que o desconforto emocional surge com mais força quando a pessoa percebe claramente que está com fome.A pesquisa, publicada na revista eBioMedicine em dezembro, acompanhou 90 adultos saudáveis ao longo de quatro semanas. Durante o período, os voluntários usaram sensores contínuos de glicose e responderam, duas vezes por dia, a questionários sobre humor, saciedade e sensação de fome.Ao cruzar os dados, os pesquisadores observaram que níveis baixos de glicose só se relacionavam a piora do humor quando vinham acompanhados da percepção consciente da fome. Ou seja, o impacto emocional não dependia apenas do metabolismo, mas da experiência subjetiva.Segundo os autores, “não é o nível de glicose em si que melhora ou piora o humor, mas o quanto essa falta de energia é percebida conscientemente”. A sensação de fome funcionaria como um gatilho emocional mais forte do que a alteração fisiológica isolada.Esse efeito foi ainda mais evidente entre participantes que relataram maior atenção aos sinais do próprio corpo. Quanto mais a pessoa identificava sensações internas, menor era a oscilação de humor ao longo do dia.“Notavelmente, indivíduos com maior acurácia interoceptiva apresentaram menos flutuações nas avaliações de humor”, destacaram os pesquisadores no artigo.A chamada interocepção — capacidade de perceber sinais internos como fome, sede, respiração e batimentos cardíacos — aparece como um fator de proteção emocional. Pessoas com essa habilidade mais desenvolvida tendem a agir antes que o desconforto se transforme em irritação.Os cientistas acreditam que entender melhor essa relação pode abrir caminhos para novas abordagens de cuidado emocional, incluindo práticas de consciência corporal. Apesar disso, eles reforçam que o estudo foi feito apenas com adultos saudáveis e que mais pesquisas são necessárias para confirmar os efeitos em pessoas com transtornos metabólicos ou de saúde mental.
