Jovem morto por leoa foi negligenciado pelo Estado e tinha sonho de domar leões
História marcada por abandono, transtornos mentais e sucessivas violações revela trajetória de vulnerabilidade que antecedeu a tragédia
A morte de Gerson de Melo Machado, de 19 anos, no Parque Arruda Câmara, em João Pessoa, jogou luz sobre uma vida atravessada por negligência e sofrimento desde a infância. O jovem, que invadiu a jaula de uma leoa no último domingo (30), era acompanhado há anos pelo Conselho Tutelar da região da Mangabeira — e sua trajetória era bem conhecida pela conselheira Verônica Oliveira.Segundo ela, Gerson cresceu cercado por condições extremas de vulnerabilidade. Chamado por muitos de “Vaqueirinho”, o rapaz convivia desde cedo com transtornos mentais e dificuldades familiares graves. A conselheira resume a história dele com um retrato duro da infância: “Gerson era uma criança que sofreu todo tipo de violação de direito. Filho de uma mãe esquizofrênica, com avós também comprometidos na saúde mental, vivia numa pobreza extrema”.Ao longo dos anos, o destino de Gerson foi sendo moldado por rupturas e recusas. Ele e os quatro irmãos foram afastados da mãe ainda pequenos. Todos acabaram adotados, menos ele. De acordo com Verônica, a própria instituição alegou que “ninguém adotaria uma criança como ele”. A mãe, fragilizada mentalmente, não conseguia oferecer qualquer cuidado consistente: “Ela muitas vezes foi levá-lo ao conselho e dizia que não era mais mãe dele e queria devolvê-lo. Ela também é vítima da mente doente”.Sem apoio familiar e convivendo com crises, Gerson cresceu sem diagnóstico fechado. Só anos depois foi constatado que ele tinha esquizofrenia e atraso cognitivo: “Tinha 19 anos, mas quando conversava, sua capacidade cognitiva, acredito, que não passava de cinco anos”.Entre idas e vindas do Conselho Tutelar, ele acumulou passagens pela polícia por pequenos furtos praticados desde muito jovem. A conselheira lembra de um dos inúmeros pedidos de ajuda que ele fez: “Semana passada me procurou no Conselho porque havia saído do presídio e queria trabalhar, mas para isso precisava ter carteira de trabalho. Forneci as cópias, tiramos uma foto e dois dias depois, ao ligar a TV, vejo que Gerson havia jogado um paralelepípedo na viatura da PM”.O diagnóstico formal só veio quando ele já estava no sistema socioeducativo, algo que, para Verônica, evidencia uma falha estrutural grave: “Gerson era visivelmente uma criança com transtornos graves, mas precisou chegar ao sistema socioeducativo para que fosse diagnosticado”.O desejo de “domar leões” acompanhava Gerson por anos e refletia seu quadro psicológico. Segundo a conselheira, ele chegou a se esconder no trem de pouso de um avião acreditando que chegaria à África — e acabou sendo encontrado e encaminhado novamente ao Conselho.Para alguém que viveu boa parte da vida “enjaulado” pelas circunstâncias, como define Verônica, a tragédia que tirou sua vida foi, para ela, um desfecho que simboliza o abandono coletivo: “Gerson é resultado de um sistema que o excluiu sempre, ele já estava enjaulado há anos. Hoje foi o desfecho de uma “Crônica de uma Morte Anunciada”. Espero que a lição fique e que os inúmeros Gersons que atendemos todos os dias tenham um final mais feliz. Meu sentimento é de total impotência, e esse sentimento causa uma dor enorme na alma”.
