Mulher que foi atropelada e arrastada na Marginal passa por nova amputação

Mulher que foi atropelada e arrastada por homem em São Paulo segue em estado grave; veja

NOTA: A notícia a seguir aborda violência extrema contra mulheres e pode ser sensível para algumas pessoas. Se você ou alguém que você conhece está em situação de risco, denuncie pelo 180. Em emergências, acione a Polícia Militar pelo 190.Tainara Souza Santos, de 31 anos, passou por uma nova cirurgia de amputação nesta segunda-feira (22), no Hospital das Clínicas, na zona oeste de São Paulo. A intervenção foi necessária para possibilitar a reconstrução de lesões graves provocadas pela tentativa de feminicídio sofrida no fim de novembro, quando a vítima foi atropelada e arrastada por cerca de um quilômetro na Marginal Tietê, na altura da Vila Maria, zona norte da capital.Segundo o advogado Wilson Zaska, responsável pela defesa de Tainara, o procedimento teve como principal objetivo viabilizar a reconstrução da região do glúteo, uma das áreas mais comprometidas pelo ataque. De acordo com ele, a cirurgia foi considerada bem-sucedida, mas o estado de saúde da paciente ainda demanda cuidados intensivos e acompanhamento rigoroso.Internada desde o dia 3 de dezembro, Tainara já passou por cinco intervenções cirúrgicas desde o episódio. O quadro clínico é considerado complexo e inclui períodos de intubação, múltiplas transfusões de sangue e a amputação das duas pernas abaixo do joelho, em razão da gravidade dos ferimentos.Relembre o casoNa manhã de 29 de novembro, Tainara foi vítima de uma tentativa de feminicídio na Marginal Tietê, em São Paulo. Imagens de câmeras de segurança registraram o momento em que ela caminhava ao lado de um homem e, em seguida, foi atropelada. Um segundo vídeo mostrou o motorista arrastando a vítima por uma longa distância na via.Socorrida em estado gravíssimo, a vítima foi levada inicialmente ao Hospital Municipal Vereador José Storopolli, com ferimentos severos no rosto e nas pernas. O suspeito do crime, Douglas Alves da Silva, de 26 anos, foi preso na noite de 30 de novembro em um hotel na Vila Prudente, zona leste da capital.De acordo com a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo, o agressor agiu com intenção deliberada de matar a vítima. Ele já era procurado pela Justiça e responderá pelo crime de tentativa de feminicídio.Um levantamento do Instituto Sou da Paz mostra que São Paulo concentra parte significativa dos feminicídios do estado: um em cada quatro casos consumados ocorreu na capital. A comparação entre janeiro e outubro de 2025 e o mesmo período de 2024 indica alta de 23% na cidade. Em relação aos dados de 2023, o avanço chega a 71%.O estudo aponta que a violência fatal contra mulheres segue um padrão consolidado. A residência da vítima permanece como principal cenário dos crimes (67%), e armas brancas ou objetos contundentes foram utilizados em mais da metade dos casos registrados no estado.Adriana Liporoni, coordenadora das Delegacias de Defesa da Mulher em São Paulo, destaca que o feminicídio costuma ser o último estágio de agressões contínuas. Para ela, o aumento das notificações é resultado tanto da escalada dos conflitos nos relacionamentos quanto da melhoria na classificação e no registro legal desses crimes.A coordenadora lembra que a tipificação do feminicídio, criada em 2015, ampliou a precisão das estatísticas ao separar esses crimes dos registros gerais de homicídio. Segundo ela, esse avanço contribuiu para identificar melhor a motivação de gênero, mas não explica sozinho o aumento das ocorrências. A delegada aponta que parte do crescimento reflete também a intensificação da violência extrema, muitas vezes ligada à tentativa de controle e à reação desproporcional de agressores diante do fim do relacionamento.Mesmo com o aprimoramento das leis, Liporoni destaca que a resposta estatal ainda enfrenta limitações. “O grande desafio está na prevenção e na capacidade de identificar os primeiros sinais do ciclo violento”, afirma. Ela explica que, quando os primeiros indícios são reconhecidos e a rede de apoio consegue agir rapidamente, há mais chances de interromper a escalada antes que ela chegue ao extremo.Para Malu Pinheiro, do Instituto Sou da Paz, o perfil dos feminicídios exige estratégias específicas. Como a maioria é cometida por parceiros, ex-parceiros ou familiares, geralmente dentro da residência —, a abordagem precisa ser distinta da adotada em outros crimes contra a vida. Ela defende a ampliação dos serviços de acolhimento e proteção, fundamentais para que as mulheres consigam romper vínculos abusivos com segurança.A gravidade desses ataques também impressiona profissionais acostumados a lidar com cenas de violência. À Folha de S.Paulo, a fotógrafa técnico-pericial Telma Rocha, com mais de três décadas de atuação em ocorrências de homicídio, relatou o impacto das cenas que testemunha.”[Mulheres] queimadas, amarradas, espancadas, mutiladas. Mas o que mais me chama a atenção e, muitas vezes me quebra, são os ferimentos de defesa. Cortes nas mãos, nos braços e unhas quebradas. Isso me destrói, pois chega a passar a cena na minha imaginação. É muito cruel.”

Carregar Mais Notícias