Nando Cunha reflete sobre vulnerabilidade e quebra estereótipos: ‘Nós, homens pretos, nunca fomos amados’
Em entrevista à CARAS Brasil, o ator Nando Cunha critica estereótipos na arte, relembra lutas da carreira e celebra sua ancestralidade em festival cultural
O ator Nando Cunha está em movimento. Conhecido pelo grande público por seu talento irretocável no humor, eternizado em personagens de sucesso, e aclamado pela crítica por atuações dramáticas que já lhe renderam o prestigiado Kikito em Gramado, ele vive hoje uma fase de balanço e renovação. Apesar de estar no elenco da aclamada série Donos do Jogo (2025), as batalhas que enfrenta são reais, complexas e exigem uma bravura que vai muito além da ficção.Para o ator, o racismo estrutural e as dificuldades inerentes à profissão artística são os grandes “dragões” de sua jornada. Para combatê-los, ele encontrou na fé o seu principal escudo. A devoção a São Jorge não é apenas simbólica, é o motor de sua resistência.“Enfrento os dragões do dia a dia há muito tempo por ser um homem negro. São Jorge é um santo que enfrentou desafios, venceu demandas. E é acreditando nele, na força dele, que continuo de pé e com forças para enfrentar os meus desafios, que são a discriminação, o preconceito, a falta de oportunidades. Tenho ele como companheiro que não me deixa desistir”, revela o ator com exclusividade à CARAS Brasil.Essa fé pulsante é o que o motiva a dar um passo inédito neste mês de abril. Após 19 anos promovendo uma tradicional feijoada gratuita em homenagem ao santo, Nando amplia a celebração com o I Festival de Jorge, um evento de três dias focado em cultura, ancestralidade e devoção: “É a primeira vez que faço esse festival de cultura e fé. A expectativa é muito grande para que tudo dê certo, muita ansiedade, muita apreensão, mas São Jorge sempre foi símbolo de fé e coragem, assim também é na minha vida. Sempre meti as caras sem medo. Sempre fui movido a fé e coragem, e não será agora que ele vai me desamparar. Vou vestido com as roupas e armas de Jorge e esperando que façamos um evento bonito e grandioso.”Se nos palcos a luta é por espaço, na vida íntima Nando precisou de uma coragem imensa para lidar com as sombras da depressão. Recentemente, ele abriu o coração sobre a doença e revelou que seu filho, Davi, foi a âncora que o impediu de desistir. A experiência o obrigou a confrontar e desconstruir o estereótipo cruel imposto aos homens negros.“Temos uma ideia equivocada de que o homem negro é um homem forte, que suporta tudo e que não tem fragilidades, ou que não consegue ser sensível em suas relações. Isso faz parte de um imaginário dessa narrativa racista”, analisa. “Somos vistos como cafajestes, vagabundos, preguiçosos. Meu filho me ensina todos os dias sobre o tempo dele, e, com sua chegada, veio minha evolução como ser humano, da forma como enxergo o mundo. Não desisti pelo amor dele, que é para mim o maior e mais profundo amor do mundo. Hoje não tenho vergonha de falar de minhas fragilidades, das minhas dores e assim consigo transformá-las em outra. Pois ela fica para lembrar de quem a gente é e de onde a gente veio.”Quando a crise financeira e a depressão vieram a público, a internet reagiu com choque. Mas foi longe do barulho virtual que ele encontrou a verdadeira cura. “Encontrei conforto no meu silêncio, na minha terapia. No meu mergulho interior. Na minha paz. A internet faz muito barulho. Mas é só quando estamos sozinhos e em silêncio que conseguimos nos ouvir. E quando você consegue achar sentido entre o martírio e a fé, prefira o silêncio e a paz da minha companhia. Sou o único representante do meu sonho aqui na Terra. Então, não tem muito o que fazer. É erguer os punhos, levantar e andar. Como diz na música do Emicida.”O amadurecimento emocional também transformou a forma como ele encara o amor. Após um período de dor e exposição devido ao término de um relacionamento, que acabou em um pedido público de desculpas à ex-namorada, Nando precisou aprender, na marra, o valor do amor-próprio:“Estava fragilizado por uma perda e por uma expectativa que coloquei no outro. Nós, homens pretos, nunca fomos amados. Sim, desejados. Mas não, amados. Precisamos aprender sobre isso”, constata. “Não tenho vergonha de expor minhas emoções. Isso mostra quem eu sou. Do ator que sou. E quão sensível eu sou. Vou errar outras vezes. Mas tenho certeza: não vou cometer os mesmos erros. Ando pra frente. E vou amar a quem me ama. E, nesse caso, EU.”A vulnerabilidade que Nando abraça na vida pessoal contrasta com a força de sua militância na profissão. Ele não se cala diante da instabilidade do meio artístico, questiona o etarismo e repudia as caixas nas quais a indústria tenta confinar atores negros.“A luta exaustiva de todos os dias é de provar que somos humanos, essa é a verdade. Temos que naturalizar nossos corpos nesses espaços de arte, de verdade. Não é só colocar um grande número de atores pretos num lugar que a gente sabe que é forçado. Temos que normatizar nossas presenças. Assim como ter um autor de novelas preto assinar uma novela sozinho”, pontua. “Sempre quis provar que sou mais que um ator engraçado. Já mostrei isso várias vezes. Mas temos que matar os nossos dragões todos os dias. E sem meu santo guerreiro, eu não teria sobrevivido por 30 anos nessa carreira.”Para ele, a atuação é um ofício sagrado que exige preparo, e não um atalho para o estrelato. “Sou um operário da arte, e vivo dela por ofício e não por fama. Por anos nossa arte foi desclassificada, tratada como função de quinta categoria. Até que um grupo de atores resolve brigar pela regulamentação da nossa profissão. E hoje vemos cantores, rappers, influenciadores fazendo o trabalho de que se precisa preparo para poder exercê-la. Não podemos normatizar esse tipo de coisa. Ou qualquer um vai fazer o que nos preparamos tanto para fazer. Mas sou um descendente Zulu. Sou um soldado de Ogum e devoto dessa imensa legião de Jorge. Não desisto.”Com a sabedoria de quem já superou tempestades, Nando Cunha olha para trás com carinho. Se pudesse tomar um café com o jovem que, nos anos 90, largou a faculdade de Letras para fundar um grupo de teatro, o conselho seria direto: “Vai com tudo, moleque. Sem medo. O mundo é nosso.”E é com essa mesma fome de mundo que ele projeta o futuro, focado em seus sonhos engavetados e na busca incessante pela excelência. “Tenho muitas coisas pra realizar. Quero ser respeitado como artista. Quero viver tudo que um ator possa ter a oportunidade de viver. De verdade. Sigo na fé do cavaleiro nobre de capa encarnada. Que vive na lua. E que mata o dragão.”O evento, que expande a tradicional feijoada de São Jorge promovida pelo ator há 19 anos, reunirá apresentações artísticas, contação de histórias, dança, exibição de filmes, debates, roda de samba, feira artesanal e gastronomia. A famosa feijoada gratuita ocorrerá no encerramento, no dia 23.Quando: 10, 11 e 12 de abril (Festival) | 23 de abril (Feijoada de Jorge)Onde: Terraço da Vila, Terraço Shopping Boulevard (Rua Barão de São Francisco, 236 – 6º piso).Entrada: 1 kg de alimento não perecível (arrecadações destinadas ao projeto Paz na Comunidade).Sujeito à lotação.CONFIRA PUBLICAÇÃO RECENTE DA CARAS BRASIL NAS REDES SOCIAIS: Um post compartilhado por CARAS (@carasbrasil)
