Em dez dias, um canal de WhatsApp virou a maior demonstração de força digital da campanha de 2026. O Exército do Lula, criado pelo deputado André Janones (Rede-MG) para mobilizar apoiadores do presidente no segundo turno, tinha cerca de 50 mil inscritos no dia do primeiro turno. Nesta sexta-feira (16), já passa de 4,7 milhões, quase duas vezes e meia o tamanho da “Tropa do Flávio”, o canal rival dos apoiadores de Flávio Bolsonaro (PL), que tem 1,9 milhão.
E o mais curioso: boa parte desse crescimento veio justamente das tentativas de tirar o canal do ar.

Meio milhão em seis horas
O canal nasceu na noite do primeiro turno, em 4 de outubro. Segundo Janones, ele tinha 55 mil seguidores quando as urnas fecharam e bateu a primeira meta, de 500 mil, em apenas seis horas. Em vídeos, o deputado passou a chamar os inscritos de “soldados” e pediu que os interessados comentassem a palavra “soldado” para receber o link.
O próprio presidente entrou na convocação. Em vídeo divulgado por Janones, Lula pediu que o grupo fosse “o maior exército democrático do mundo”.
A censura que virou combustível
Em 7 de outubro, a campanha de Flávio Bolsonaro foi ao Tribunal Superior Eleitoral pedir a derrubada do canal, alegando difusão coordenada de conteúdo falso. O que veio depois foi uma novela:
- 11 de outubro: o presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, manda suspender o canal, que já tinha 3,3 milhões de inscritos. Horas depois, o corregedor-geral, Ricardo Villas Bôas Cueva, derruba a decisão por considerá-la excessiva.
- 13 de outubro: Nunes Marques suspende o canal de novo, desta vez por falta de registro formal na Justiça Eleitoral.
- 14 de outubro: com o registro regularizado pela campanha, o próprio Nunes Marques libera o canal, que volta a funcionar à noite.
No meio da briga, o canal disparou. Janones diz que ganhou 1 milhão de novos inscritos só depois da primeira tentativa de suspensão. Na noite de 12 de outubro, segundo levantamento do Metrópoles, eram 4,1 milhões no Exército contra 1,4 milhão na Tropa.
E a acusação que deu origem a tudo não se sustentou. A área técnica do TSE não encontrou conteúdo falso publicado pelo Exército do Lula entre 2 e 11 de outubro. Já o Aos Fatos identificou 17 publicações falsas ou distorcidas na Tropa do Flávio entre 7 e 13 de outubro.
“Vou pegar o da Janja emprestado”
A meta agora é chegar a 5 milhões. Para animar a tropa, Lula prometeu entrar pessoalmente no canal quando a marca for atingida e fez piada com a própria situação financeira:
Não, eu não vou comprar porque eu não tenho dinheiro, eu vou pegar o da Janja emprestado e vou entrar.
Lula, em vídeo divulgado por André Janones
Segundo Janones, a ideia é que o presidente passe a interagir diretamente com os participantes.

A nova arma da eleição
Os canais de WhatsApp, lançados em 2023, funcionam como uma transmissão: só os administradores publicam, e os seguidores reagem e compartilham, sem limite de participantes. Para a consultora de comunicação política Camila Braga, ouvida pelo jornal O Tempo, eles colocam o apoiador no modo de ser “ativado” para tarefas e ajudam as campanhas a contornar o alcance restrito das redes tradicionais.
Se em 2018 a eleição foi marcada pelo disparo em massa e em 2022 pelos grupos, 2026 já tem a sua marca: os canais. E, por enquanto, quem manda nesse território é o Exército do Lula. O próprio Janones resume o segredo: o canal cresce por causa do nome de Lula, e um “Exército Janones”, segundo ele, teria muito menos seguidores.
O segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro acontece no domingo, 25 de outubro. O plenário do TSE ainda vai julgar o caso do canal, sem data marcada.
Números de inscritos segundo O Tempo, Metrópoles, Poder360 e Congresso em Foco. As medições variam conforme a fonte e o horário. Foto de capa: Ricardo Stuckert/PT (CC BY-SA 4.0).