Lavagem, corrupção e evasão de divisas: as investigações que cercam Flávio Bolsonaro a três dias do segundo turno

Flávio Bolsonaro cercado de microfones durante entrevista no Senado

O candidato do PL à Presidência chega à reta final da eleição como alvo de dois inquéritos no Supremo Tribunal Federal. Flávio Bolsonaro é investigado por suspeita de lavagem de dinheiro, corrupção e evasão de divisas no caso do filme Dark Horse, bancado com dinheiro de Daniel Vorcaro, e, desde outubro, por suspeita de lavagem de dinheiro em sua relação com o advogado Willer Tomaz. A Polícia Federal também apura as condições de um empréstimo do BRB que ajudou o senador a comprar uma mansão em Brasília.

A série Revelando, que já havia exposto a teia entre o Banco Master e a Igreja da Lagoinha, dedicou dois episódios ao senador. Abaixo, reunimos o que é investigação formal, o que é suspeita sem processo e o que diz cada lado. Ser investigado não significa ser culpado: nenhum dos inquéritos tem conclusão, e Flávio nega todas as irregularidades.

“Revelando: República dos Laranjas”, com Fábio Porchat (episódio 7). Reprodução/YouTube @revelando_br

1. Dark Horse: lavagem, corrupção e evasão de divisas

É a investigação mais grave e a mais antiga. Em 22 de julho de 2026, o ministro André Mendonça, do STF, atendeu a um pedido da Polícia Federal, com parecer favorável da Procuradoria-Geral da República, e incluiu Flávio como investigado em uma apuração vinculada ao inquérito do caso Banco Master. A decisão só se tornou pública em setembro, quando parte do sigilo foi retirada.

Segundo as reportagens, a PF apura a possível prática de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção no financiamento de Dark Horse, a cinebiografia de Jair Bolsonaro. O caso veio à tona depois que o The Intercept Brasil divulgou áudios em que o senador pede dinheiro a Vorcaro para a produção. Os valores citados variam conforme a fonte:

  • A PF rastreia até US$ 24 milhões negociados com Vorcaro, dos quais cerca de US$ 12,3 milhões já foram identificados em transferências.
  • Segundo a Agência Brasil, o repasse para a produção chegou a R$ 61 milhões, e a suspeita é que o dinheiro tenha sido liberado a pedido do senador.
  • Mensagens divulgadas pelo Intercept mostram um pedido de R$ 131 milhões ao banqueiro.

Em setembro, Mendonça homologou a delação do doleiro Antônio Carlos Freixo Júnior, o “Mineiro”, apontado como responsável por repasses em dinheiro vivo ligados ao filme. O inquérito segue sob sigilo.

O que diz Flávio: primeiro, o senador chamou a informação de mentira. Depois, reconheceu ter procurado Vorcaro e disse tratar-se de “patrocínio privado para um filme privado”. Ele nega ter recebido comissão ou oferecido qualquer contrapartida.

2. Willer Tomaz: lavagem de dinheiro

Em outubro, a Polícia Federal enviou ao Supremo um segundo inquérito contra o senador, distribuído ao ministro Alexandre de Moraes. A suspeita é de lavagem de dinheiro na relação de Flávio com o advogado brasiliense Willer Tomaz.

A investigação nasceu de outro inquérito, da PF no Rio Grande do Sul, sobre fintechs e casas de apostas. Os investigadores apuram se Tomaz controla a Rede Loto, a primeira bet autorizada pelo governo do Rio de Janeiro. Segundo o Metrópoles, a PF encontrou no armazenamento em nuvem do advogado registros de encontros, festas e reuniões com Flávio, além de documentos pessoais do senador. O inquérito cita ainda:

  • uma conta ligada a Tomaz que movimentou cerca de R$ 130 milhões entre março e maio de 2025, cuja origem e destino a PF diz ser preciso aprofundar;
  • pagamentos de viagens do senador;
  • uma conta bancária da Alcazar Holding na qual Flávio aparece como “usuário master”.

Tomaz já havia sido alvo de busca e apreensão em agosto, na Operação Sem Desconto, que investiga fraudes no INSS. Flávio não foi alvo daquela operação. Quando o inquérito veio a público, as defesas do senador e do advogado não haviam se manifestado.

“Quando só amizade envolve acesso total a uma conta bancária”, trecho do Revelando sobre a Alcazar Holding. Reprodução/YouTube @revelando_br

3. A mansão e o empréstimo do BRB

Fora dos dois inquéritos, a PF apura, dentro da Operação Compliance Zero, que investiga os negócios entre o BRB e o Banco Master, as condições do financiamento de R$ 3,1 milhões que o banco público do Distrito Federal concedeu a Flávio em 2021 para comprar uma casa de cerca de R$ 6 milhões em Brasília. A investigação foi revelada pelo jornal O Globo.

O contrato previa 360 parcelas, ao longo de 30 anos, com juros de 3,71% ao ano, abaixo da média de cerca de 4,85% praticada pelo BRB naquele ano. Flávio quitou tudo em três anos. Os investigadores querem saber se o banco, então presidido por Paulo Henrique Costa, depois investigado no caso Master, alterou regras para favorecer o senador. Flávio diz que a operação foi legal e que tinha renda para pagá-la.

“Jatinho, mansão e apartamento: as conexões entre Flávio e Vorcaro”, trecho do Revelando. Reprodução/YouTube @revelando_br

4. As suspeitas que ainda não viraram processo

Há uma série de revelações que, até agora, não resultaram em acusação formal contra o senador, mas que estão no centro da campanha e dos episódios do Revelando:

  • O jatinho: Flávio voou em um jato cuja estrutura societária incluía uma empresa de Vorcaro. Tomaz, dono de um terço da aeronave, diz que desconhecia a participação do banqueiro. Os deputados Rogério Correia e Lindbergh Farias pediram ao STF que investigue quem pagou os voos.
  • O apartamento: durante a campanha, Flávio usou um apartamento de Tomaz que antes esteve ligado a Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro.
  • As notas fiscais: o escritório de Flávio emitiu R$ 1,5 milhão em notas para empresas do entorno de Vorcaro. O senador nega ter prestado serviços à Copenhagen, empresa que movimentou R$ 58 milhões do Master.
  • O INSS: pessoas do entorno do senador têm vínculos com o “Careca do INSS”, investigado pela fraude contra aposentados. Flávio nega envolvimento.
  • As emendas: R$ 199 mil foram para um instituto ligado aos irmãos Brazão, e R$ 666 mil para uma entidade que a Receita classificou como “inexistente de fato”. Flávio diz que seu gabinete indica as emendas, mas não escolhe as empresas contratadas.
“A proximidade de Flávio com a fraude do INSS”, trecho do Revelando. Reprodução/YouTube @revelando_br

5. O passado: a rachadinha

O caso mais antigo é o da “rachadinha” na Assembleia Legislativa do Rio. O Ministério Público do Rio denunciou Flávio, então deputado estadual, por peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa, acusando-o de comandar o recolhimento de parte dos salários de servidores do gabinete, operado por Fabrício Queiroz.

O processo, porém, não chegou ao fim. Decisões do STJ e do STF anularam provas usadas pelo MP, e em 2022 o Tribunal de Justiça do Rio rejeitou a denúncia, a pedido do próprio Ministério Público. Não houve julgamento do mérito. Flávio sempre negou as acusações, e sua defesa considera o caso encerrado.

O que mostra o Revelando

No episódio “República dos Laranjas”, lançado em 20 de outubro, Fábio Porchat retoma o caso Master para incluir personagens que, segundo ele, ficaram de fora do episódio anterior: Willer Tomaz e o ministro Kassio Nunes Marques, presidente do TSE. A tese é que a rede funciona por meio de laranjas: “As empresas são da doméstica, as contas são de offshore e as casas são de outra empresa”, resume o apresentador. Tomaz entrou com uma queixa-crime contra Porchat por calúnia e difamação.

O caminho do dinheiro do Master até a política já havia aparecido no segundo episódio da série, que conecta Vorcaro à Igreja da Lagoinha e cita o financiamento de Dark Horse.

“Revelando: Grandes Igrejas, Master Negócios” (episódio 2). Reprodução/YouTube @revelando_br

Nesta quinta-feira (22), a série lançou o episódio 8, “Flavinho de Papai”, com MC Cabelinho. Ele trata das propostas do candidato e da acusação de que Flávio teria sido funcionário fantasma no gabinete do pai aos 19 anos.

“Revelando: Flavinho de Papai”, com MC Cabelinho (episódio 8). Reprodução/YouTube @revelando_br

Resumo: em que pé está cada caso

  • Dark Horse (STF, ministro André Mendonça): investigado por lavagem, corrupção e evasão de divisas. Inquérito em andamento, sob sigilo.
  • Willer Tomaz (STF, ministro Alexandre de Moraes): investigado por lavagem de dinheiro. Inquérito aberto em outubro.
  • Empréstimo do BRB (PF, Operação Compliance Zero): condições do financiamento sob apuração. Sem conclusão.
  • Jatinho, apartamento, notas fiscais, INSS e emendas: revelações da imprensa, sem acusação formal contra o senador até agora.
  • Rachadinha (TJ-RJ): denúncia rejeitada em 2022 depois da anulação de provas. Caso encerrado, sem julgamento do mérito.

Flávio Bolsonaro nega irregularidades em todos os casos. O segundo turno entre ele e Lula acontece no domingo, 25 de outubro.

Fontes: Agência Brasil, CNN Brasil, Metrópoles, O Povo, Exame, Brasil de Fato, CartaCapital, O Globo e The Intercept Brasil. Os inquéritos tramitam sob sigilo, e os valores citados variam entre as reportagens. Os vídeos são exibidos por meio da ferramenta de incorporação do YouTube. Foto de capa: Senado Federal/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).