Durante quase dois anos, o homem que comandava os jornais, revistas e rádios do Grupo Globo trocou mensagens com Daniel Vorcaro em tom de camaradagem. Nelas, o dono do Banco Master reclamava de reportagens, pedia “matéria muito boa”, solicitava o contato de um herdeiro da família Marinho e convidava o executivo para festas “sem celular” e “sem risco”. As conversas, apreendidas pela Polícia Federal no celular do banqueiro, vieram a público nesta semana. Na quinta-feira (15), a Globo demitiu Frederic “Fred” Kachar, diretor-geral de Mídia Impressa e Rádio, depois de 29 anos de casa.
A nota oficial é curta. O grupo diz que o conteúdo revela “uma relação inadequada do executivo com um anunciante” e reafirma a independência editorial. Mas as mensagens, que vão de outubro de 2023 a julho de 2025, mostram uma relação que vai muito além da área comercial e chegam ao coração do jornalismo da empresa.
“Gordura de mídia”
Em setembro de 2024, Kachar encaminhou a Vorcaro uma reportagem do Valor Econômico, jornal do próprio grupo, sobre o Banco Master. “Não vai falar nada rs?”, provocou. A resposta do banqueiro é das mais reveladoras de todo o material: ele disse que seguia “precisando uma matéria muito boa pra criar gordura de mídia”. Kachar respondeu que não dava “pra fazer matéria sem olhar pra todos os fatos”.

O patrocinador do Valor
A proximidade tinha também um lado de negócios. Segundo as reportagens, o Banco Master foi o principal patrocinador do Summit Valor Econômico Brazil-USA, em maio de 2024, no Hotel Plaza, em Nova York. Kachar organizou o evento e apresentou Vorcaro ao público. De acordo com o Diário do Centro do Mundo, o executivo prometeu ao banqueiro “repercussão ampla em todos os veículos do grupo Globo”.
O dinheiro do Master também chegou ao entretenimento. Segundo a Agência Pública, empresas de Vorcaro patrocinaram o Baile da Vogue e o Carnaval de 2024, em valores que teriam somado cerca de R$ 1,7 milhão.
“Vou falar com ela”
Em abril de 2025, Vorcaro recorreu a Kachar para reclamar de uma reportagem da colunista Malu Gaspar, de O Globo, uma das jornalistas que mais investigaram o Master. “Isso é sacanagem demais fred. numa boa”, escreveu. “Diminui muito o jornalismo da Globo.” O executivo disse entender a queixa, chamou o estilo da colunista de “cansativo e desnecessário” e prometeu: “Vou falar com ela”.

As reportagens que tiveram acesso ao material ressaltam que os registros não mostram mudança na cobertura de Malu Gaspar, que seguiu publicando sobre o caso. Mesmo assim, fica a imagem de um banqueiro investigado reclamando diretamente ao chefe da colunista, e de um chefe que se dispôs a “falar com ela”.
O contato do herdeiro
No início de 2024, Vorcaro pediu a Kachar o contato de Roberto Marinho Neto, neto do fundador da Globo e CEO da Globo Ventures, o braço de investimentos do grupo. As reportagens não informam se o contato foi passado nem se houve algum negócio. O pedido aparece no meio de uma conversa sobre uma festa que o banqueiro chamou de “ataque soviético”. Segundo a Agência Pública, os dois se referiam a esses encontros como “idas à Ucrânia”.
“Sem celular. E sem risco”
Em maio de 2024, veio o convite que mais chamou a atenção. “Fechei um lugar”, escreveu Vorcaro. “Sem celular. E sem risco.” Kachar topou na hora (“É nessa que eu vou!”) e foi tratado como “convidado de honra”. Na tarde seguinte, agradeceu: “Obg pelo convite ontem. Será q alguém anotou a placa do caminhão que me atropelou rs?”.

Machismo no Baile da Vogue
As mensagens também expõem comentários machistas sobre mulheres que nada têm a ver com o caso. Durante o Baile da Vogue de 2024, evento patrocinado por empresas de Vorcaro, os dois fizeram comentários de cunho sexual sobre Sabrina Sato e Deborah Secco, que estavam trabalhando na festa. Optamos por não reproduzir os trechos.
A reação foi imediata. A assessoria de Sabrina classificou a menção como “machista, desrespeitosa e irresponsável”, afirmou que ela nunca teve contato com Vorcaro e que o banqueiro sequer estava no baile na data citada.
É inadmissível expor a imagem e a reputação de uma mulher com base em uma narrativa alheia à sua realidade.
Assessoria de Sabrina Sato
Deborah Secco também reagiu e chamou as falas de “machistas”.
Não é um caso isolado
A demissão de Kachar acontece duas semanas depois de mensagens do mesmo celular exporem a relação de Luciano Huck com Vorcaro: R$ 109 milhões em contratos do Will Bank, jantares em plena crise e um jatinho dividido. Enquanto isso, segundo a Revista Oeste, jornalistas da própria Globo que apuravam as fraudes do Master estariam entre os alvos de grupos de intimidação investigados pela PF.
Um executivo da cúpula, o apresentador mais popular da casa e o patrocínio de eventos da emissora: o Master teve, ao mesmo tempo, várias portas abertas dentro da Globo.
As perguntas que a Globo não respondeu
- Quem, na direção do grupo, sabia da proximidade entre Kachar e Vorcaro, e desde quando?
- Por que a demissão só veio depois do vazamento, e não quando o compliance teria condições de identificar a relação com um anunciante investigado?
- Roberto Marinho Neto chegou a conversar com Vorcaro? A Globo Ventures avaliou algum negócio com o Master?
- Quanto o Master e as empresas de Vorcaro investiram, no total, em patrocínios e publicidade no Grupo Globo?
Procurados pela imprensa, Fred Kachar e a defesa de Daniel Vorcaro não se manifestaram até a publicação desta reportagem. As mensagens, por si só, não comprovam que reportagens tenham sido alteradas a pedido do banqueiro. Mas ajudam a explicar por que a Globo decidiu agir tão rápido.
As mensagens citadas foram apreendidas pela Polícia Federal no celular de Daniel Vorcaro e divulgadas por TV Pop, O Antagonista, Agência Pública, Diário do Centro do Mundo, Cláudio Dantas e Jornal de Brasília, entre outros. As imagens de conversa são reconstituições feitas pelo Fofocas e Famosos com os trechos literais publicados, e não as capturas de tela originais. Foto de capa: sede da TV Globo no Rio de Janeiro, Doll91939/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).