No último debate antes do segundo turno, na TV Globo, nesta sexta-feira (23), Flávio Bolsonaro (PL) repetiu boatos já desmentidos, inventou números e atribuiu a Lula decisões tomadas por outros governos. As duas principais agências de checagem do país, a Lupa e o Aos Fatos, que verificaram em tempo real mais de 50 falas do candidato, encontraram pelo menos 12 afirmações classificadas como falsas ou insustentáveis, além de uma série de exageros e dados fora de contexto.
A Globo não fez checagem durante a transmissão, apesar de uma petição com mais de 1,1 milhão de assinaturas pedindo verificação ao vivo. Então fizemos o trabalho: reunimos, uma a uma, as afirmações de Flávio que não resistiram aos fatos.
As 12 afirmações falsas ou insustentáveis
1. “Lula é o pai do Tigrinho”
O que Flávio disse: que Lula seria “o pai do Tigrinho”, responsável por criar e liberar os cassinos online.
Veredito: FALSO (Lupa, Aos Fatos e Terra).
A verdade: As apostas de quota fixa foram legalizadas pela Lei 13.756/2018, sancionada por Michel Temer. O governo de Jair Bolsonaro tinha até quatro anos para regulamentar o setor e não o fez, e o mercado funcionou sem regras nem impostos. Foi Lula quem sancionou, em 2023, a lei que regulamentou e passou a tributar as bets.
2. O “ladrão de celular” e a “cervejinha”
O que Flávio disse: que Lula defende que ladrão de celular não seja preso, porque roubaria para “tomar uma cervejinha”.
Veredito: FALSO (Lupa e Aos Fatos).
A verdade: A frase circula editada desde 2020. No original, uma entrevista de 2017, Lula dizia que a violência tem relação com a falta de perspectiva econômica. A Lupa já tinha desmentido essa versão há seis anos, e Flávio voltou a usá-la mesmo assim.
3. Bolsonaro “não debochou” da falta de ar
O que Flávio disse: que é “mentira” que Jair Bolsonaro tenha imitado pessoas com falta de ar durante a pandemia.
Veredito: FALSO (Lupa, Aos Fatos e Terra).
A verdade: Bolsonaro imitou uma pessoa sem ar em lives de 18 de março e de 6 de maio de 2021, ao criticar a orientação de procurar o hospital só em caso de falta de ar. As imagens existem e estão disponíveis.
4. A PF e o dinheiro do filme
O que Flávio disse: que “a Polícia Federal acabou de fazer um relatório” atestando que o filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro, “não tem dinheiro público”.
Veredito: FALSO (Aos Fatos) e INSUSTENTÁVEL (Lupa).
A verdade: Não existe relatório da PF com essa conclusão. Pelo contrário: segundo reportagem do The Intercept com base em documentos da PF, o dinheiro do filme saiu do Banco Master por meio de fraudes financeiras e empréstimos ilícitos. O próprio Flávio é investigado no STF por lavagem de dinheiro, corrupção e evasão de divisas nesse caso.
5. A “nova” Casa da Mulher Brasileira
O que Flávio disse: que, se eleito, vai “criar a Casa da Mulher Brasileira”.
Veredito: FALSO (Lupa) e ENGANOSO (Aos Fatos).
A verdade: O programa existe desde 2013, criado no governo Dilma Rousseff, e já tem 13 unidades funcionando. O governo de Jair Bolsonaro cortou cerca de 90% da verba de combate à violência contra a mulher, de R$ 100,7 milhões em 2020 para R$ 9,1 milhões em 2022.
6. A barra de chocolate
O que Flávio disse: que, por causa do governo Lula, a barra de chocolate “que antes tinha 120 g agora tem só 80 g”.
Veredito: FALSO (Lupa).
A verdade: Barras de 80 g já eram vendidas em 2022, no governo Bolsonaro. A redução das embalagens acontece desde os anos 1990, e as empresas citam a alta do cacau, do leite, do açúcar e da logística.
7. O juro “de 20%” do Plano Safra
O que Flávio disse: que o produtor rural não consegue financiamento porque o juro real do Plano Safra “chega a ficar próximo de 20%”.
Veredito: FALSO (Lupa).
A verdade: As taxas nominais do Plano Safra 2026/2027 vão de 8% a 12,5% ao ano. Descontada a inflação, a taxa mais alta equivale a cerca de 7,9% de juro real, menos da metade do que o candidato disse.
8. As santas casas
O que Flávio disse: que o governo Lula não ajudou as santas casas a reduzir suas dívidas.
Veredito: FALSO (Aos Fatos).
A verdade: Existem linhas de crédito da Caixa e com recursos do FGTS voltadas justamente à renegociação das dívidas das santas casas.
9. O cartão corporativo
O que Flávio disse: que Lula gastou mais no cartão corporativo do que Jair Bolsonaro.
Veredito: FALSO (Terra/Aos Fatos).
A verdade: No cartão da Presidência, Bolsonaro gastou R$ 41,2 milhões entre 2019 e 2022, contra R$ 20,4 milhões de Lula entre 2023 e 2025, segundo levantamento com base no Portal da Transparência. As comparações que circulam nas redes misturam o gasto de todo o governo federal com o da Presidência.
10. A meta do esgoto
O que Flávio disse: que o governo Lula adiou de 2033 para 2050 a meta de 90% de atendimento de esgoto.
Veredito: FALSO (Terra/Aos Fatos).
A verdade: O Marco do Saneamento, de 2020, fixa a meta de 99% de água e 90% de esgoto até 2033, com possibilidade de extensão até 2040, e não até 2050.
11. Os “R$ 30 milhões” do Instituto Lula
O que Flávio disse: que Lula precisa explicar “onde foram parar” R$ 30 milhões que teriam ido para o Instituto Lula fazer um filme.
Veredito: INSUSTENTÁVEL (Lupa).
A verdade: A história vem de relatos atribuídos a Daniel Vorcaro e publicados pela revista Veja. Não há comprovante de pagamento, a PGR e a PF negaram que esse depoimento exista, e o advogado de Vorcaro disse desconhecer o fato. Não há menção ao caso nos celulares apreendidos.
12. A morte da menina Ana Clara
O que Flávio disse: que a menina Ana Clara morreu durante “uma troca de tiros numa comunidade conflagrada”.
Veredito: INSUSTENTÁVEL (Lupa) e CONTRARIADO PELOS FATOS (Aos Fatos).
A verdade: É a versão da defesa do PM Bruno Delaroli, da qual o próprio Flávio faz parte. O Ministério Público do Rio contesta essa versão: a perícia não encontrou sinais de confronto na viatura e só achou vestígios da munição do policial. Moradores negam que tenha havido troca de tiros.
Os exageros e as meias-verdades
Além das afirmações falsas, o candidato inflou números e omitiu o contexto de várias outras:
- “11.500 obras paradas” e “cemitério de obras”: o painel mais recente do TCU registra 4.215 obras paralisadas, menos da metade das 8,6 mil de agosto de 2022, no fim do governo Bolsonaro. (Lupa: falta contexto e exagerado)
- “R$ 400 bilhões para se reeleger”: o número inclui renúncias fiscais e gastos já previstos no Orçamento, e não há prova de finalidade eleitoral. (Lupa: exagerado)
- “Bolsonaro passou o Bolsa Família para R$ 600”: o Auxílio Brasil nasceu com R$ 400 e só chegou a R$ 600 em junho de 2022, em ano eleitoral, e só até o fim daquele ano. (Lupa: exagerado)
- “Bolsonaro concluiu a transposição do São Francisco”: a obra, iniciada em 2007, segue em andamento. Bolsonaro inaugurou trechos. (Lupa: exagerado)
- “Os moradores de rua dobraram”: o aumento foi de 42% a 51%, conforme a base usada, mas em nenhum cálculo a população dobrou. (Lupa: exagerado)
- “Os estados mais violentos são governados pelo PT”: dos cinco primeiros do ranking, só Ceará e Bahia têm governo petista. (Aos Fatos: enganoso)
- “Lula criou 30 novos impostos”: a conta mistura tipos diferentes de tributação, como a reoneração da folha. (Aos Fatos: enganoso)
- “A esquerda governou a Argentina por 20 anos seguidos”: foram 16 anos e meio. (Aos Fatos: incorreto)
- “Eu nunca fui investigado por envolvimento com milícia”: é verdade que ele não é alvo direto, mas uma assessora dele negociou emenda para o miliciano Robson Calixto, condenado no caso Marielle, e ele empregou a mãe e a mulher de Adriano da Nóbrega, a quem homenageou na Alerj. (Lupa: falta contexto)
E o Lula?
As checagens também apontaram erros do presidente. Lula disse, de forma falsa, que a economia não crescia acima de 3% desde 2010 (cresceu em 2011, 2013, 2021 e 2022) e que o “Tigrinho” foi criado pelo governo Bolsonaro em 2022 (as apostas foram legalizadas por Temer em 2018). Também exagerou ao dizer que tinha acabado com a fome em 2012. A maior parte de suas falas checadas, porém, foi classificada como verdadeira.
Segundo um levantamento do site Mais Novela que reuniu as duas checagens, foram 18 afirmações de Flávio classificadas como falsas somando Aos Fatos e Lupa, sem contar as exageradas, imprecisas ou sem contexto.
O segundo turno acontece neste domingo, 25 de outubro. Antes de votar, vale conferir as checagens completas nos sites da Agência Lupa e do Aos Fatos.
Os vereditos citados são das agências Lupa e Aos Fatos e da checagem conjunta Terra/Aos Fatos, publicadas na noite de 23 de outubro de 2026 e sujeitas a atualização. Foto de capa: Carlos Moura/Agência Senado (CC BY 4.0).