“Não publicarei sem nos falarmos”: como Vorcaro revisava matérias do Metrópoles enquanto pagava R$ 20 milhões ao portal

Fachada do edifício sede do Banco de Brasília, o BRB

“Se tiver alguma incorreção, me avise!! Não publicarei sem nos falarmos.” A frase não foi escrita por uma assessora de imprensa, e sim por Lilian Tahan, CEO do Metrópoles, um dos maiores portais de notícias do país, para Daniel Vorcaro, o dono do Banco Master. Ela faz parte das mensagens apreendidas pela Polícia Federal no celular do banqueiro e analisadas pelo UOL. Segundo o levantamento, ao menos 14 textos do portal foram enviados a Vorcaro antes da publicação, e 11 foram alterados a pedido dele. Nesse mesmo período, o Master pagou ao Metrópoles um contrato publicitário de R$ 20 milhões.

Um café, R$ 1 milhão e um contrato de R$ 20 milhões

A relação começou em maio de 2024, em um café organizado por Guilherme Barros, então assessor de Vorcaro. “A Lilian gostou muito de vc”, relatou ele ao banqueiro. Um mês depois, o Master pagou R$ 1 milhão ao portal. Em julho, vieram mais R$ 900 mil para projetos de “educação financeira” da seguradora Kovr e do banco digital Will, ambos do grupo.

Em novembro de 2024, Lilian enviou uma nova proposta, que fechou em R$ 20 milhões, quitados ao longo de 2025 em parcelas de R$ 5 milhões. Quando a diretora de marketing do banco reclamou do preço, Vorcaro foi taxativo.

Reconstituição de conversa de Vorcaro sobre o contrato com o Metrópoles
O contrato de R$ 20 milhões, em 2024. Reconstituição do Fofocas e Famosos com trechos literais das mensagens apreendidas pela PF, conforme divulgados pelo UOL.

“Tiramos”

Com o contrato em andamento, as mensagens mostram o banqueiro atuando quase como revisor. Em 2 de abril de 2025, ele contestou a informação de que teria existido uma proposta de R$ 1 pelos ativos do Master: “Proposta de 1 real nunca existiu!”. A resposta veio em uma palavra: “Tiramos”.

Dias depois, o BRB, banco público do Distrito Federal, anunciou a compra de 58% do Master, operação que dependia do aval do Banco Central. Em 10 de abril, a própria CEO do portal sugeriu uma pauta e perguntou ao banqueiro se ela “ajuda ou atrapalha”. Vorcaro pediu para ver os dados antes, e a matéria saiu no mesmo dia, depois de passar por ele.

Reconstituição de conversas entre Vorcaro e Lilian Tahan em abril de 2025
As trocas de abril de 2025. Reconstituição do Fofocas e Famosos com trechos literais das mensagens apreendidas pela PF, conforme divulgados pelo UOL.

“Dar uma freada” no crítico

O ponto mais grave envolve Ricardo Cappelli, um dos críticos mais barulhentos da venda do Master ao BRB. “Esse Cappelli, você não consegue dar uma freada essa semana? Depois ele volta!”, pediu Vorcaro. “Deixa comigo”, respondeu Lilian.

Em agosto de 2025, o alvo foi o Banco Central. Segundo o UOL, Vorcaro pediu que uma entrevista com Roberto Campos Neto falasse menos do diretor do BC Renato Gomes, contrário à operação, e sugeriu mudanças em um perfil do próprio Gomes. Pediu para retirar a menção à possível falência do Master e para incluir a versão de um “racha” no Banco Central. Segundo o levantamento, o portal incorporou as sugestões. Em maio, ele já havia pedido que a Hapvida fosse retirada de uma reportagem sobre a venda de ativos ao BTG Pactual, e foi atendido.

Reconstituição de conversas entre Vorcaro e Lilian Tahan em agosto de 2025
Cappelli, Campos Neto e Renato Gomes, em 2025. Reconstituição do Fofocas e Famosos com trechos literais das mensagens apreendidas pela PF, conforme divulgados pelo UOL.

“Publicada hahahaha”

A última troca é de 17 de novembro de 2025, o dia em que Vorcaro foi preso. Lilian enviou ao banqueiro minutas de reportagens sobre a venda do Master à Fictor. Ele pediu alterações. Depois, ela avisou: “Publicada hahahaha”. Horas depois, o banqueiro era detido no aeroporto de Guarulhos.

O que diz o Metrópoles

Ao UOL, Lilian Tahan defendeu o envio de textos a fontes antes da publicação:

Checar com a fonte se a matéria reflete o contexto passado para o veículo é uma prática que adoto.

Lilian Tahan, CEO do Metrópoles

Segundo ela, a prática vale também para políticos, integrantes do Judiciário e empresários. Lilian negou qualquer relação entre o contrato publicitário e a cobertura e citou reportagens críticas que o portal publicou sobre empresas ligadas a Vorcaro. Sobre Renato Gomes, disse que ele se tornou um personagem relevante por ser contrário à compra do Master pelo BRB. Sobre Cappelli, lembrou que o dono do portal, Luiz Estevão, também sempre criticou a operação.

O padrão

O caso do Metrópoles veio a público na quinta-feira (15), o mesmo dia em que a Globo demitiu o diretor Fred Kachar, a quem Vorcaro pedia “matéria muito boa” e de quem ouviu “vou falar com ela” ao reclamar da colunista Malu Gaspar. Duas semanas antes, mensagens do mesmo celular já haviam exposto a relação do banqueiro com Luciano Huck.

A diferença é de grau. Na Globo, as reportagens que tiveram acesso ao material não encontraram mudança na cobertura. No Metrópoles, segundo o UOL, há textos que foram efetivamente alterados depois de passar pelo banqueiro, enquanto o banco despejava milhões no portal.

As perguntas que ficam

  • Quais outras “fontes” recebem matérias do Metrópoles antes da publicação, e quantas delas são também anunciantes?
  • Os leitores foram informados, em algum momento, de que o Master era um dos maiores clientes do portal enquanto ele cobria a venda ao BRB?
  • Por que a cobertura de Ricardo Cappelli, crítico da operação, deveria “dar uma freada” a pedido do maior interessado nela?
  • O portal vai revisar e sinalizar as 11 reportagens alteradas a pedido de Vorcaro?

A defesa de Daniel Vorcaro não se manifestou sobre as mensagens.

As mensagens citadas foram apreendidas pela Polícia Federal no celular de Daniel Vorcaro e analisadas pelo UOL. Os trechos foram repercutidos por ND+, BPMoney e Revista Fórum, entre outros. As imagens de conversa são reconstituições feitas pelo Fofocas e Famosos com os trechos literais publicados, e não as capturas de tela originais. Foto de capa: sede do BRB em Brasília, Paulo H. Carvalho/Agência Brasília (CC BY 2.0).